O álbum ‘Mano’ une o legado de Erasmo Carlos com talentos do hip hop brasileiro, provando que a música não tem barreiras de tempo ou gênero
Que aventura sonora é esse tal de “Mano”! Lançado hoje, 22 de maio, este álbum é uma ponte entre gerações e estilos musicais, onde o eterno Erasmo Carlos se une a nomes potentes do rap brasileiro. A ideia é revisitar as joias que o cantor e compositor nos deixou entre 1971 e 1973, um período em que ele expandiu seus horizontes para além do rock’n’roll da Jovem Guarda. No entanto, confesso, a primeira faixa, “É preciso dar um jeito, meu amigo / A vida irrita a arte”, com Emicida, me deixou um pouco apreensivo. É quase um discurso do Emicida sobre uma base criada pelo Tropkillaz, onde a música original de Erasmo, de 1971, quase se perde.
O idealizador do projeto, Léo Esteves, filho de Erasmo, queria que a obra do pai cruzasse novas galáxias do universo pop, e a conexão com o hip hop é justamente o mote de “Mano”. A curadoria musical ficou a cargo de Marcus Preto, que já havia trabalhado nos últimos álbuns de Erasmo, incluindo o aclamado “… Amor é isso” (2018). A má impressão inicial, felizmente, se dissipa conforme o álbum avança. “Mano” realmente ganha força quando a interação entre gerações e gêneros acontece de verdade.
E quando isso acontece, meus amigos, é pura magia! Destaque para Budah em “Cachaça mecânica” (1973). Nesse samba-rock, que já trazia a influência de Chico Buarque, Budah faz uma intervenção matadora. Ouvimos um pedacinho da voz de Erasmo, ela canta um trecho da letra original e depois manda um rap que amplifica a angústia do personagem João. Essa simbiose é perfeita e, para mim, é o ápice do álbum, mostrando como Budah soube capturar e expressar todo o peso da narrativa.
Outro que mostra muita sagacidade é o rapper Dexter. Em “Mundo cão” (1972), ele usa um refrão de Silvio Brito, “Tá todo mundo louco”, para comentar a música de Erasmo. A rima de Dexter sobre a base de Coyote Beatz faz um diálogo inteligente sem apagar a presença do Tremendão. O álbum também traz releituras de “Sábado morto” (1972) e “Sorriso dela”, ambas com a produção caprichada de Pupillo.
Em “Sábado morto”, a voz de Erasmo surge nos primeiros minutos sobre a base de Pupillo, até que entra o rap de Xamã, citando a fama de “mau” do cantor. A música evolui bem, ganhando mais liga do que a participação de Rael em “Sorriso dela”. E falando em mulheres incríveis do rap, a dupla Tasha & Tracie manda ver em “O tempo é amigo e inimigo”, dialogando de forma inteligente com “Grilos” (1972) sobre batidas suaves. Menos sutis, mas igualmente eficientes, são Marcelo D2 e a cadência do reggae na atualização de “Maria Joana” (1971), música onde Erasmo aludia à maconha.
Para fechar com chave de ouro, “Mano” nos presenteia com a união de Erasmo, Criolo e Tássia Reis em “Gente aberta / Imensamente visceral”. Criolo divide os versos de “Gente aberta” (1971) com Erasmo, e a entrada do rap de Tássia Reis, junto com a percussão de Edy Trombone, cria uma atmosfera de pura sedução. É um final digno para um álbum que prova que a primeira impressão nem sempre é a que fica. “Mano” é um belo convite para explorar o legado de Erasmo Carlos sob uma nova perspectiva!
