A inteligência artificial deixou de ser apenas uma novidade na indústria musical e passou a participar de diferentes etapas da criação de músicas. De letras e arranjos a instrumentos, vocais e produção, ferramentas de IA já são utilizadas por artistas e produtores de diferentes tamanhos.
Casos de músicas assumidamente criadas com inteligência artificial, como “Sina de Ofélia” e o hit que ganhou repercussão durante a Copa do Mundo, chamaram atenção do público. Mas o uso da tecnologia vai muito além de artistas virtuais ou músicas inteiramente geradas por máquinas.
Profissionais ouvidos pelo g1 relatam que artistas reais também recorrem à IA para acelerar processos de criação e produção. Ferramentas como o Suno podem gerar instrumentais, harmonias, corais e outros elementos a partir de comandos simples. Até ferramentas como ChatGPT e Gemini são usadas para desenvolver ideias de letras.
A tecnologia também pode ser aplicada aos vocais. Um exemplo citado é a música “Venenosa”, de Pocah, MC GW e Triz. Durante a produção, um trecho foi gravado por Tállia e posteriormente transformado por IA para reproduzir a voz de Pocah, com autorização da cantora.
Por que a indústria usa IA?
A principal vantagem está na velocidade e na redução de custos. Em um mercado que trabalha com prazos curtos e grande volume de lançamentos, conseguir criar uma base musical, testar arranjos ou substituir uma etapa de gravação em poucos segundos pode representar uma economia significativa.
Ferramentas como o Suno também democratizam processos que antes exigiam músicos, produtores e estúdios. Com poucos comandos, qualquer usuário pode gerar uma música completa ou experimentar diferentes possibilidades sonoras.
Essa facilidade, porém, levanta uma questão: até que ponto uma música criada com auxílio de inteligência artificial ainda é uma obra humana?
Para os profissionais do setor, a resposta não é simples. O uso da tecnologia como ferramenta não elimina necessariamente a participação criativa de uma pessoa. O problema aparece quando sistemas são utilizados para reproduzir estilos, vozes ou elementos de obras existentes sem autorização.
O debate sobre direitos autorais
Um dos principais pontos de preocupação é justamente a forma como alguns modelos de IA são treinados. Ferramentas capazes de gerar músicas podem utilizar grandes bases de obras existentes para aprender padrões musicais, o que levanta discussões sobre direitos autorais e remuneração dos artistas.
Também existe o risco de a tecnologia produzir resultados muito próximos de músicas ou estilos conhecidos, dificultando a distinção entre inspiração, reprodução e plágio.
Além disso, profissionais do mercado apontam que músicas geradas por IA ainda podem apresentar características estranhas, como letras pouco naturais, instrumentos artificiais e harmonias incomuns.
Apesar das limitações, a tecnologia já encontrou espaço na indústria. E a tendência é que sua presença aumente à medida que as ferramentas se tornem mais sofisticadas.
A grande questão não parece mais ser se a IA fará parte da música, mas como artistas, produtores, plataformas e leis vão definir os limites dessa participação.
No fim, a tecnologia pode ajudar a criar um hit, acelerar uma produção ou resolver um problema de estúdio. Mas transformar uma música em algo capaz de atravessar gerações continua sendo um desafio que, por enquanto, ainda depende da criatividade e da sensibilidade humanas.
