O aumento do custo de vida e dos juros tem levado cada vez mais argentinos a recorrerem a empréstimos para manter as contas em dia. Entre os mais afetados estão trabalhadores de aplicativos, que passaram a utilizar com frequência o crédito oferecido por fintechs para cobrir despesas relacionadas ao próprio trabalho.
Em Buenos Aires, por exemplo, entregadores cujas motos são apreendidas pelas autoridades de trânsito precisam pagar multas e taxas para recuperar os veículos. O custo pode chegar a 140 mil pesos argentinos, cerca de US$ 90 — o equivalente a dois dias de trabalho para um entregador que recebe, em média, 70 mil pesos por dia.
Sem dinheiro para arcar com a despesa, muitos recorrem a empréstimos oferecidos por plataformas digitais. Alguns dos créditos têm juros anuais superiores a 100%. A PedidosYa, por exemplo, oferece empréstimos com taxa anual de 131%, enquanto a carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%.
Empréstimos por fintechs disparam
O número de empréstimos concedidos por fintechs na Argentina aumentou 20 vezes em sete anos, passando de aproximadamente 500 mil para 10 milhões, segundo Mariano Biocca, diretor-executivo da Câmara Argentina de Fintech.
Ao mesmo tempo, cresce a dificuldade para quitar as dívidas. Estimativas da entidade apontam que quase 6 milhões de pessoas estão com pagamentos atrasados há mais de 90 dias, o equivalente a quase um terço dos tomadores de crédito.
Dados do Banco Central argentino mostram que a parcela dos empréstimos às famílias em atraso chegou a 12,8% em junho, maior índice desde o início da série histórica, em 2010. No fim de 2023, quando Javier Milei assumiu a Presidência, o percentual era de 2,8%.
Juros aumentam peso das dívidas
Analistas apontam que o cenário atual também representa uma mudança em relação aos anos de inflação elevada na Argentina. Naquele período, a rápida alta dos preços e dos salários fazia com que o peso real das dívidas diminuísse ao longo do tempo.
Com os juros agora acima da inflação, porém, as parcelas passaram a pressionar mais o orçamento das famílias, tornando os empréstimos mais difíceis de pagar.
Um estudo da consultoria Analytica indica que os jovens estão entre os grupos mais afetados pelo aumento da inadimplência. A facilidade para contratar crédito por meio de carteiras digitais é apontada como um dos fatores que contribuem para o problema.
Governo rejeita medidas de alívio
O governo de Milei tem resistido aos pedidos de sindicatos, consumidores e organizações de defesa dos devedores por medidas financiadas pelo Estado para reduzir o peso das dívidas.
A administração argentina afirma que o aumento da inadimplência é, em parte, consequência temporária da expansão do mercado de crédito privado. O crédito privado representa atualmente cerca de 12% do PIB argentino, percentual inferior ao registrado no Brasil, onde chega a aproximadamente 80%.
O avanço do endividamento ocorre em meio às mudanças econômicas promovidas pelo governo Milei e aumenta a pressão sobre famílias que dependem do crédito para lidar com despesas do dia a dia.
