Quase 25 anos após o apagão de 2001, quando o Brasil enfrentou falta de energia, o sistema elétrico nacional vive um problema de sinal contrário: há eletricidade demais em determinados momentos do dia.
O cenário levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a acionar, pela primeira vez em junho, um plano emergencial para reduzir a geração de energia eólica e solar. A medida, conhecida como curtailment, consiste em limitar ou interromper temporariamente a produção para evitar desequilíbrios no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Um dos fatores que explicam a situação é o forte crescimento da geração solar distribuída. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), cerca de 4,5 milhões de consumidores já produzem energia por meio de painéis solares, com uma potência instalada de aproximadamente 50 GW, equivalente a cerca de 20% da capacidade total instalada no país.
O problema é que essa geração, especialmente a chamada “energia de telhado”, não é controlada diretamente pelo ONS. Assim, em períodos de baixa demanda e alta produção solar e eólica, torna-se mais difícil equilibrar a oferta e o consumo.
Especialistas divergem sobre a principal causa do problema. Para pesquisadores ouvidos pela BBC, o cenário está relacionado ao crescimento acelerado das fontes renováveis, aos subsídios concedidos ao setor e à falta de investimentos em armazenamento, infraestrutura e mecanismos de flexibilidade.
Já a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) afirma que atribuir o excesso de oferta à geração solar distribuída é uma simplificação. Para a entidade, o problema está no crescimento da capacidade renovável sem investimentos na mesma velocidade em armazenamento, modernização das redes e gestão da demanda.
Outro fator é a redução do consumo em determinados períodos, como finais de semana prolongados, feriados e dias de jogos do Brasil. Com menos atividade econômica e menor demanda, a quantidade de energia disponível pode superar a capacidade de absorção do sistema.
O paradoxo é que, apesar do excesso de oferta em determinados momentos, a conta de luz continua subindo. Segundo os dados citados na reportagem, a energia elétrica residencial acumulava alta de 8,79% em 12 meses até junho, quase o dobro da inflação no mesmo período.
A saída apontada por especialistas passa pelo desenvolvimento de sistemas de armazenamento, como baterias, além de hidrelétricas reversíveis, capazes de guardar o excedente produzido em momentos de alta geração para utilizá-lo quando o consumo aumentar.
Enquanto essas soluções não avançam, o curtailment deve continuar sendo utilizado para manter o equilíbrio do sistema — com os custos e impactos dessa energia que deixa de ser aproveitada sendo um dos principais desafios para o setor elétrico brasileiro.
