O aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, anunciado nesta terça-feira (14) pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), marca mais um capítulo da longa história do biocombustível no Brasil. A medida, válida por 180 dias, busca reduzir o impacto da disparada do petróleo provocada pela escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã.
Embora a decisão responda ao cenário atual, a estratégia remete à maior crise energética da história recente. Na década de 1970, o choque do petróleo levou o Brasil a investir fortemente no etanol como alternativa para diminuir a dependência das importações de combustível.
A utilização do álcool combustível, no entanto, começou muito antes. Em 1931, um decreto determinou que toda gasolina importada recebesse uma mistura obrigatória de 5% de álcool. Dois anos depois, o governo de Getúlio Vargas criou o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), responsável por organizar o setor e incentivar o aproveitamento da cana-de-açúcar para produção de combustível.
O grande impulso veio em 1975, com a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool). O projeto uniu governo, universidades, montadoras e produtores rurais para expandir a produção de etanol, ampliar sua distribuição e desenvolver veículos movidos exclusivamente pelo combustível renovável.
Nos primeiros anos, porém, o desafio era tecnológico. As conversões artesanais de carros a gasolina apresentavam diversos problemas, como corrosão de componentes, vazamentos, dificuldades para partidas a frio e falhas no sistema de alimentação.
A situação começou a mudar em 1979, quando o Fiat 147 se tornou o primeiro automóvel produzido em série no mundo capaz de rodar com 100% de etanol. O modelo passou por milhares de quilômetros de testes antes de chegar ao mercado e abriu caminho para uma nova geração de veículos movidos pelo combustível vegetal.
Após enfrentar dificuldades na década de 1990, quando a queda do preço internacional do petróleo reduziu a competitividade do etanol, o setor voltou a crescer com a chegada dos carros flex, lançados em larga escala a partir de 2003.
Hoje, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), o Brasil possui mais de 32 milhões de veículos flex, o equivalente a cerca de 85% da frota nacional, consolidando o país como referência mundial na tecnologia.
Outra mudança importante ocorreu em 2010, quando os postos deixaram de utilizar oficialmente a palavra “álcool” e passaram a adotar o termo “etanol”, padronizando a nomenclatura utilizada internacionalmente e diferenciando o combustível dos demais tipos de álcool.
Com a nova elevação da mistura obrigatória na gasolina, o etanol volta a ocupar papel estratégico na política energética brasileira, ajudando a reduzir a dependência do petróleo em um momento de forte instabilidade no mercado internacional.
