Um acidente de bicicleta fez Silvio Luiz Pinheiro interromper temporariamente o trabalho como entregador por aplicativo. Após uma queda em São Paulo, ele machucou a clavícula e o cotovelo e decidiu voltar ao emprego com carteira assinada para ter acesso a convênio médico e maior segurança em caso de afastamento.
O acidente aconteceu quando o freio dianteiro da bicicleta elétrica travou na Avenida Sumaré, na Zona Oeste da capital. Ao tentar desviar de pedestres, Silvio perdeu o controle e caiu. Ao devolver a bicicleta alugada, ele afirma que sentiu falta de apoio por parte da empresa responsável pelo equipamento.
A experiência fez o entregador repensar a profissão. “Voltei para a CLT por causa do convênio, porque a plataforma não te dá essa segurança”, contou.
Brasil ainda não sabe quantos entregadores sofrem acidentes
O caso de Silvio expõe um problema maior: o país ainda não consegue dimensionar quantos entregadores sofrem acidentes enquanto trabalham.
Segundo o IBGE, 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de aplicativos em 2024, número 25,4% maior que o registrado dois anos antes. Desse total, cerca de 485 mil eram entregadores.
O problema é que as bases oficiais de acidentes de trânsito e de atendimentos de saúde não identificam, de forma consolidada, se a vítima estava trabalhando para uma plataforma no momento da ocorrência.
Em São Paulo, por exemplo, acidentes fatais envolvendo ciclistas passaram de 320 em 2021 para 409 em 2025, alta de 27,8%. Os números, porém, incluem todos os ciclistas e não permitem separar trabalhadores de aplicativo dos demais.
O Ministério Público do Trabalho tenta melhorar esse registro. Em 2025, o Ministério da Saúde orientou profissionais a informar nos atendimentos se a vítima trabalhava para aplicativos e se estava em atividade no momento do acidente. Ainda assim, não há estatísticas consolidadas sobre os resultados da medida.
Falta de proteção preocupa trabalhadores
Para o procurador do trabalho Rodrigo Castilho, do MPT, a falta de informações das próprias plataformas também dificulta a compreensão do problema. Segundo ele, as empresas não fornecem dados suficientes sobre quantidade de trabalhadores ativos, jornada ou acidentes ocorridos durante as entregas.
Enquanto a regulamentação específica dos entregadores continua sem consenso, trabalhadores seguem expostos aos riscos do trânsito sem contar necessariamente com a mesma proteção previdenciária de empregados formais.
Silvio voltou às entregas e hoje prefere trabalhar à noite, quando há menos trânsito e temperaturas mais amenas. Mesmo após o acidente, continua encarando os riscos diariamente para atingir sua meta de renda.
“A gente anda com cuidado o tempo todo, mas é uma coisa que um dia pode acontecer”, afirma.
