A assinatura do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã colocou fim a quase quatro meses de conflito no Oriente Médio e trouxe alívio para governos, empresas e investidores ao redor do mundo. Apesar da trégua já estar em vigor, economistas alertam que os impactos da guerra sobre a economia global devem continuar sendo sentidos nos próximos meses.
O principal foco de preocupação durante o conflito foi o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Por ali passa cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado mundialmente. A interrupção do fluxo provocou uma disparada histórica nos preços da commodity, elevando custos de produção, transporte e energia em diversos países.
Com o anúncio do acordo, os mercados reagiram positivamente. O petróleo Brent, que chegou a se aproximar dos US$ 120 por barril durante o auge da crise, recuou para a faixa dos US$ 80. Ainda assim, permanece acima dos níveis registrados antes do início da guerra.
Petróleo mais caro pressionou inflação global
O aumento do preço do petróleo foi o principal canal de transmissão da crise para a economia mundial.
Combustíveis ficaram mais caros em diversos países, elevando os custos do transporte de mercadorias e impactando diretamente o preço de alimentos, produtos industrializados e serviços. Fertilizantes também registraram forte alta, pressionando a produção agrícola.
A Agência Internacional de Energia (IEA) realizou a maior liberação emergencial de estoques de petróleo de sua história para tentar conter a escalada dos preços, mas a medida não foi suficiente para evitar os efeitos inflacionários.
Especialistas destacam que, embora a paz tenha reduzido as tensões, o retorno à normalidade dependerá da estabilidade da região e da recuperação completa das cadeias de abastecimento.
Inflação e desgaste político nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, a guerra atingiu um dos pontos mais sensíveis para os eleitores: o preço da gasolina.
O valor médio do galão ultrapassou os US$ 4 durante os meses mais críticos do conflito, contribuindo para o avanço da inflação e dificultando os planos do presidente Donald Trump de reduzir o custo de vida no país.
Com a inflação distante da meta do Federal Reserve (Fed), o banco central americano manteve os juros elevados, adiando cortes que eram aguardados pelo mercado.
O cenário econômico também teve reflexos políticos. Pesquisas registraram queda na aprovação do governo, especialmente entre eleitores preocupados com o aumento do custo de vida.
Agora, com a redução dos preços do petróleo, analistas avaliam que Trump pode recuperar parte da popularidade perdida, embora os efeitos da crise ainda estejam presentes na economia americana.
Brasil também sentiu os reflexos
No Brasil, a alta internacional do petróleo elevou os preços dos combustíveis e pressionou toda a cadeia produtiva.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostraram aumentos expressivos no diesel e na gasolina ao longo dos últimos meses. O encarecimento do frete acabou sendo repassado para diversos produtos consumidos pelas famílias.
A inflação oficial segue acima do centro da meta estabelecida pelo Banco Central, enquanto as expectativas do mercado apontam para juros elevados por mais tempo.
Segundo economistas, a redução das tensões internacionais pode contribuir para aliviar parte dessas pressões, mas os efeitos não devem desaparecer imediatamente.
Mercados financeiros respiram aliviados
A guerra também provocou forte volatilidade nos mercados financeiros.
Durante os momentos de maior incerteza, investidores buscaram proteção em ativos considerados mais seguros, como o dólar. A moeda americana se fortaleceu em diversos países, incluindo o Brasil.
Com a perspectiva de paz, parte desse movimento foi revertida. Investidores voltaram a buscar aplicações de maior risco, beneficiando bolsas de valores e moedas de países emergentes.
Ainda assim, analistas destacam que o cenário continua sensível a qualquer sinal de instabilidade no Oriente Médio.
Crescimento global perdeu força
As consequências da guerra também levaram organismos internacionais a revisar suas projeções para a economia mundial.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu suas estimativas de crescimento para 2026, citando o impacto dos preços elevados das commodities, o aumento dos custos financeiros e a queda da confiança dos investidores.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também alertou para uma desaceleração mais intensa da atividade econômica caso os efeitos da crise energética se prolongassem.
Mesmo com o acordo de paz já em vigor, economistas avaliam que a recuperação dependerá da manutenção da estabilidade política na região e da continuidade da queda nos preços da energia.
Depois de meses de turbulência, o mercado comemora o fim do conflito. Mas o consenso entre especialistas é que a economia global ainda precisará de tempo para absorver totalmente os impactos deixados pela guerra.
