O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil continuará negociando com os Estados Unidos para tentar reverter as tarifas de 25% impostas sobre produtos brasileiros. Segundo o presidente, o governo permanecerá aberto ao diálogo e desafia Washington a justificar as medidas, destacando que os Estados Unidos acumulam superávit comercial com o Brasil há décadas.
Apesar disso, especialistas afirmam que a disputa vai além da balança comercial. Para eles, as tarifas fazem parte de uma estratégia mais ampla da política externa americana, que combina interesses econômicos, geopolíticos e ideológicos.
Nos últimos meses, países como Reino Unido, Japão e membros da União Europeia firmaram acordos bilaterais com os Estados Unidos em busca de maior estabilidade nas relações comerciais, embora continuem sujeitos a novas medidas tarifárias. O Canadá, mesmo após assinar um acordo comercial com Washington em 2025, também voltou a enfrentar novas tarifas e mantém as negociações com o governo americano.
Para o professor Daniel Vargas, da FGV Direito Rio, a atual disputa entre Brasil e Estados Unidos não pode ser interpretada apenas como uma negociação comercial. Segundo ele, as tarifas refletem prioridades geopolíticas da administração americana, incluindo a tentativa de ampliar sua influência na América Latina e reduzir a aproximação de parceiros comerciais com a China.
Na mesma linha, o professor de Relações Internacionais Carlos Gustavo Poggio afirma que o componente político teve papel central desde o início do conflito. Segundo ele, a primeira rodada de tarifas anunciada em 2025 esteve ligada a críticas do governo americano ao cenário político brasileiro, incluindo referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao Supremo Tribunal Federal.
Para Poggio, diferentemente de outras negociações internacionais, o caso brasileiro envolve fatores políticos que dificultam uma solução exclusivamente técnica.
Os especialistas também divergem sobre a condução das negociações. Daniel Vargas avalia que o Brasil buscou diálogo, mas concentrou os esforços principalmente nos aspectos comerciais, sem abordar questões políticas e estratégicas presentes na agenda americana.
Já o analista geopolítico Gustavo Blum afirma que o governo brasileiro tentou negociar, mas encontrou pouca margem para concessões diante da postura considerada mais rígida da administração Trump. Segundo ele, o Brasil procurou preservar setores estratégicos da economia durante as conversas.
Blum observa ainda que a política tarifária pode produzir efeitos contrários aos desejados pelos Estados Unidos. Como exemplo, cita a aproximação entre Brasil e China, reforçada por conversas recentes entre Lula e o presidente chinês Xi Jinping sobre o avanço das relações comerciais e um possível acordo entre Mercosul e China.
Para Carlos Poggio, a comparação entre o Brasil e países como Japão ou membros da União Europeia deve ser feita com cautela, já que essas nações ocupam posições estratégicas diferentes para os Estados Unidos e negociaram em contextos distintos.
O professor também ressalta que eventuais acordos firmados com a atual administração americana podem ter caráter temporário, já que muitas decisões relacionadas às tarifas são adotadas pelo Poder Executivo e podem ser alteradas por futuros governos sem necessidade de aprovação do Congresso dos Estados Unidos.
