Diagnosticado com Alzheimer há dois anos, o ator britânico Peter Marinker, de 85 anos, se prepara para enfrentar um desafio que exige justamente uma das habilidades afetadas pela doença: a memória.
Marinker vai interpretar sozinho “A Última Gravação de Krapp”, de Samuel Beckett, em uma temporada de quatro dias no Cockpit Theatre, em Londres. Os ensaios começaram no fim de junho, com adaptações para ajudá-lo durante as apresentações.
O ator já havia interpretado o personagem em 1983. A nova montagem vai incorporar gravações em fita daquela primeira apresentação, criando um diálogo entre Marinker aos 85 anos e a voz de seu próprio passado.
A ideia surgiu depois que o diretor Dave Wybrow o convidou para participar do projeto. Em 2023, Marinker precisou deixar uma montagem de O Senhor dos Anéis, na qual interpretava Gandalf, após perceber que estava tendo dificuldades de memória. Exames posteriores levaram ao diagnóstico de Alzheimer.
Para garantir que ele consiga realizar a apresentação, a produção terá um diretor de palco próximo ao cenário, telas de teleprompter espalhadas pelo teatro e um pequeno ponto eletrônico para auxiliar o ator caso esqueça alguma fala.
A escolha da peça ganha um significado especial. Em A Última Gravação de Krapp, um escritor idoso escuta gravações feitas quando era mais jovem e revisita lembranças, arrependimentos e oportunidades perdidas.
Especialistas explicam que nem todos os tipos de memória são afetados da mesma maneira pelo Alzheimer. Memórias recentes e episódicas podem apresentar dificuldades antes de habilidades e rotinas praticadas repetidamente, que permanecem acessíveis por mais tempo.
É justamente essa característica que ajuda a explicar por que pessoas com demência podem continuar realizando atividades profundamente familiarizadas, como cantar, tocar instrumentos ou interpretar textos ensaiados durante anos.
Além do desafio artístico, a montagem pretende combater o estigma associado à demência. Todo o lucro da temporada será destinado à Alzheimer’s Society, organização que apoiou Marinker após seu diagnóstico.
“Um diagnóstico não é o fim”, afirma Taiyaba Zeria, da entidade, destacando que pessoas com demência continuam capazes de realizar atividades que amam.
Marinker encara a experiência com humor e sem esconder as dificuldades. Para ele, a peça representa uma oportunidade de aproveitar o momento atual da doença e continuar fazendo aquilo que ama.
“É o meu maravilhoso canto do cisne”, resume o ator.
