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'Mais simbólico do que efetivo': por que o Brasil foi à OMC contra o tarifaço, mesmo com o órgão enfraquecido

Brasil aciona OMC contra novas tarifas impostas pelos Estados Unidos Durante décadas, recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) foi o caminho usado por países para tentar resolver disputas comerciais.…

'Mais simbólico do que efetivo': por que o Brasil foi à OMC contra o tarifaço, mesmo com o órgão enfraquecido

O governo brasileiro acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Embora o mecanismo tenha sido, por décadas, o principal instrumento para resolver disputas comerciais, especialistas avaliam que a iniciativa tem hoje um peso mais diplomático e jurídico do que a expectativa de uma solução rápida.

O que o Brasil está contestando

O pedido questiona duas medidas adotadas pelos Estados Unidos:

  • uma tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, aplicada após investigação americana que apontou supostas práticas comerciais desleais;
  • uma sobretaxa de 12,5% aplicada a mais de 60 parceiros comerciais sobre produtos relacionados ao uso de trabalho forçado.

Segundo especialistas, o objetivo brasileiro é registrar oficialmente a contestação e construir uma base jurídica para futuras negociações.

Por que a OMC perdeu força?

Criada em 1995 para estabelecer regras do comércio internacional, a OMC enfrenta sua maior crise desde 2019.

O principal problema é a paralisação do Órgão de Apelação, responsável por revisar decisões dos painéis de especialistas. Os Estados Unidos bloquearam a nomeação de novos integrantes, impedindo que o órgão mantenha o número mínimo de juízes necessário para funcionar.

Com isso, disputas ainda podem ser abertas, mas muitas ficam sem uma decisão definitiva.

Especialistas afirmam que o enfraquecimento também reflete a mudança na postura das grandes potências, que passaram a privilegiar negociações políticas e medidas unilaterais em vez do sistema multilateral.

O que o Brasil espera ganhar

Na avaliação de especialistas, o principal benefício é fortalecer a posição brasileira nas negociações internacionais.

Além de reafirmar seu compromisso com o multilateralismo, o processo cria um registro jurídico que poderá servir de referência em futuras disputas comerciais.

Embora dificilmente resulte na retirada imediata das tarifas, a ação amplia os argumentos brasileiros caso ocorram novas negociações ou acordos.

Histórico favorável na OMC

O Brasil já obteve vitórias importantes na organização.

Entre os principais casos estão:

  • Algodão contra os EUA (2002): a OMC reconheceu que subsídios americanos prejudicavam produtores brasileiros. O caso terminou com um acordo e pagamento de US$ 300 milhões ao Instituto Brasileiro do Algodão.
  • Açúcar contra a União Europeia: o Brasil conseguiu que a OMC condenasse subsídios europeus, levando o bloco a reformular sua política para o setor.
  • Embraer x Bombardier: Brasil e Canadá travaram disputas sobre incentivos à indústria aeronáutica, encerradas posteriormente por meio de negociações.

Esses casos mostram que, na prática, as decisões da OMC costumam funcionar mais como instrumento de pressão para acordos do que como mecanismo de aplicação imediata de sanções.

Próximos passos

O processo entra agora na fase de consultas, em que Brasil e Estados Unidos tentarão negociar uma solução.

Caso não haja acordo, poderá ser formado um painel de especialistas para analisar a legalidade das tarifas.

Mesmo que o Brasil obtenha decisão favorável, uma eventual fase de recurso continua comprometida pela paralisação do Órgão de Apelação, o que pode prolongar o processo por meses ou até anos.

Reciprocidade também está em estudo

Paralelamente ao processo na OMC, o governo brasileiro avalia utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite responder a medidas consideradas prejudiciais adotadas por parceiros comerciais.

Especialistas, porém, defendem cautela. Em vez de uma guerra tarifária, avaliam que respostas pontuais e negociações diplomáticas tendem a gerar menos impactos para empresas e consumidores brasileiros.

Comércio internacional em transformação

O episódio acontece em um momento de mudanças na economia global.

Após pandemia, conflitos geopolíticos e problemas nas cadeias de suprimentos, governos e empresas passaram a priorizar não apenas custos, mas também segurança e estabilidade dos fornecedores.

Nesse cenário, o Brasil busca ampliar relações comerciais com diferentes parceiros e fortalecer acordos internacionais para reduzir sua dependência de mercados específicos.