O Estreito de Ormuz se consolidou como o principal instrumento de influência estratégica do Irã em meio ao conflito com os Estados Unidos. A avaliação é do cientista político Mehran Kamrava, professor da Universidade de Georgetown no Catar, em entrevista à BBC.
Segundo o especialista, após o enfraquecimento militar do chamado “Eixo da Resistência” — aliança formada por grupos como Hamas, Hezbollah e houthis —, Teerã passou a concentrar sua capacidade de pressão sobre a rota marítima, por onde passa uma parcela significativa do petróleo comercializado no mundo.
“Para o Irã, o Estreito de Ormuz é uma importante fonte de influência estratégica e sua principal fonte de dissuasão”, afirmou Kamrava.
Na avaliação do professor, o governo iraniano sabe que não possui condições de enfrentar militarmente os Estados Unidos em igualdade de condições e, por isso, tenta transformar o confronto em uma disputa econômica.
“Por isso, o Irã procura transformar um conflito militar em um conflito econômico. É justamente por essa razão que deseja manter sua influência sobre o Estreito de Ormuz”, explicou.
Kamrava acredita que os Estados Unidos também enxergam a importância estratégica da região e estariam determinados a reduzir a influência iraniana sobre a passagem marítima.
“Já vimos o presidente dos EUA tentar diversas abordagens, e parece que os americanos agora estão adotando uma estratégia diferente. Eles estão atacando locais altamente estratégicos ao longo da costa sul do Irã, no Golfo Pérsico”, afirmou.
O especialista pondera, no entanto, que ainda não é possível prever quais serão os próximos passos do conflito ou se haverá uma escalada ainda maior.
Apesar do aumento das tensões, Kamrava afirma que tanto Washington quanto Teerã demonstram interesse em encerrar o confronto, desde que um eventual acordo ocorra em termos considerados favoráveis por cada lado.
Segundo ele, países como Omã, Catar e Paquistão seguem atuando para incentivar uma solução diplomática, embora o formato de um possível entendimento ainda permaneça indefinido.
O cientista político também alertou para os impactos do conflito sobre o Oriente Médio. Na avaliação dele, países como Catar e Emirados Árabes Unidos, que vinham consolidando uma imagem de estabilidade econômica e segurança, já sofrem os efeitos da escalada militar.
Kamrava destaca ainda a possibilidade de uma ampliação da crise caso os houthis intensifiquem suas ações no Estreito de Bab el-Mandeb, outra importante rota marítima para o comércio internacional.
“Estamos vivendo um momento extremamente delicado”, concluiu.
