A chegada de novos carros chineses ao mercado brasileiro e o aumento dos descontos oferecidos pelas montadoras estão pressionando os preços dos veículos seminovos. Dados da Auto Avaliar mostram que os valores efetivamente negociados por lojistas para carros com até três anos de uso caíram 9,3% entre janeiro e junho de 2026.
A queda é quase quatro vezes maior que a registrada pela tabela Fipe, que recuou 2,4% no mesmo período. Em alguns modelos, a desvalorização ultrapassou 20%.
Entre os casos mais expressivos estão o Toyota Corolla 2025, com queda de 21,2%; o Volkswagen T-Cross 2025, que recuou 20,9%; e o Honda HR-V 2025, com redução de 20%.
Modelos como Volkswagen Nivus, Toyota Corolla Cross, Yaris e SW4 também estão entre os que mais perderam valor no primeiro semestre.
Descontos em carros novos aumentam pressão
O movimento ocorre enquanto fabricantes tradicionais ampliam promoções para competir com as marcas chinesas. Entre maio e agosto, foram anunciados descontos, bônus e novas condições comerciais para diferentes modelos.
O Mitsubishi Outlander PHEV, por exemplo, chegou a ter desconto de R$ 55 mil. No Suzuki e-Vitara, a redução alcançou R$ 50 mil. Já o Fiat Fastback Hybrid teve desconto de R$ 38,5 mil, enquanto o BYD Song Pro ficou R$ 28,5 mil mais barato.
Segundo Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar, uma redução significativa no preço de um carro zero quilômetro muda rapidamente a referência utilizada pelo consumidor e afeta o valor dos seminovos.
“O carro não precisa sair da garagem para perder valor. Quando uma montadora reduz significativamente o preço do zero km ou lança uma condição agressiva de financiamento, ela cria imediatamente uma nova referência para o consumidor.”
O efeito pode fazer com que um seminovo fique mais caro que um carro novo após a aplicação dos descontos e das condições de financiamento oferecidas pelas concessionárias.
Em uma simulação da Auto Avaliar, um Jeep Compass Sport novo, anunciado por R$ 174 mil, poderia ser comprado por R$ 147 mil, com financiamento em 30 parcelas sem juros. Já um Volkswagen Taos Comfortline 2025, anunciado por R$ 164 mil, teria preço negociado de R$ 159 mil, mas chegaria a um custo total de aproximadamente R$ 177,9 mil com financiamento.
Procura por carros chineses cresce
A preferência dos consumidores também está mudando. Segundo levantamento da Data OLX Autos, as buscas por veículos de marcas chinesas aumentaram 124% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
A faixa entre R$ 100 mil e R$ 130 mil concentra 27% das buscas por carros chineses na plataforma.
Para Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, a maior confiança do consumidor e a oferta de veículos com eletrificação, tecnologia e garantias mais longas ajudam a explicar o avanço das marcas chinesas.
O movimento também altera o mercado de usados, especialmente para lojistas que mantêm grandes estoques. Com a queda dos preços dos carros novos, veículos comprados anteriormente por valores mais altos podem perder valor antes de serem vendidos.
Mercado de usados continua aquecido
Apesar da desvalorização, o mercado de seminovos continua movimentando um volume elevado de veículos. Entre janeiro e julho de 2026, foram negociados 7,9 milhões de automóveis e comerciais leves usados no Brasil.
A relação foi de 4,88 veículos usados negociados para cada carro novo vendido no período.
Para especialistas, o cenário exige maior atenção dos lojistas na formação dos estoques. Entre os principais fatores estão a velocidade de desvalorização, a liquidez do modelo e o tempo estimado para a venda.
A consultora Tereza Fernandez avalia que a queda dos preços dos seminovos está se consolidando em 2026, mas não representa necessariamente uma crise no setor. O impacto, segundo ela, dependerá principalmente do tamanho dos estoques e da capacidade das lojas de ajustar rapidamente os preços.
Outro fator que influencia o mercado é a dificuldade de acesso ao crédito. A inadimplência levou instituições financeiras a adotar critérios mais rígidos para concessão de financiamentos, limitando parte das negociações.
Para Pagliarini, o mercado automotivo brasileiro pode se aproximar de 3 milhões de veículos vendidos em 2026, mas o resultado poderia ser maior caso as condições de financiamento fossem mais favoráveis.
