A retomada do Desenrola Fies reacendeu um debate entre beneficiários do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Enquanto estudantes com parcelas em atraso podem renegociar dívidas com descontos de até 99% e parcelamento em até 180 meses, quem manteve os pagamentos em dia reivindica tratamento semelhante.
A Medida Provisória nº 1.373/2026 criou benefícios voltados aos adimplentes, como desconto de 12% para quitação à vista e o programa Fies Empreendedor, que oferece linhas de crédito de até R$ 80 mil para pessoas físicas e R$ 180 mil para empresas. Ainda assim, estudantes afirmam que as condições estão longe das oferecidas aos inadimplentes.
Na Câmara dos Deputados, o principal projeto sobre o tema é o PL 1.306/2024, da deputada Dayany Bittencourt (União-CE), que prevê igualdade de tratamento entre beneficiários adimplentes e inadimplentes. A proposta já foi aprovada na Comissão de Educação e recebeu parecer favorável na Comissão de Finanças e Tributação, mas ainda aguarda votação.
O movimento “Adimplentes do Fies”, criado após as renegociações iniciadas em 2023, reúne mais de dois mil participantes em grupos de WhatsApp e cerca de nove mil seguidores nas redes sociais. Os integrantes defendem descontos semelhantes aos concedidos pelo Desenrola Fies, argumentando que quem manteve os pagamentos em dia acabou sendo penalizado.
O advogado Nathã Balbinot, integrante do movimento, afirma que os estudantes não buscam um novo financiamento, mas condições que permitam encerrar a dívida. Segundo ele, o grupo reivindica abatimentos entre 77% e 99%, além da possibilidade de parcelar o saldo restante.
Entre os participantes está o programador Lucas Garcia, de Belém (PA), que paga R$ 767 por mês e afirma que precisou contrair empréstimos durante a pandemia para evitar a inadimplência. Hoje empregado, diz que o financiamento continua adiando planos como a compra da casa própria.
Situação semelhante vive a médica Flávia Raiane Ottobelli, do Paraná. Ela paga cerca de R$ 2,8 mil mensais, dos quais R$ 1,6 mil correspondem apenas aos juros do contrato. O financiamento segue até 2044 e, segundo ela, o saldo atualizado supera R$ 650 mil.
Dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) mostram que, até o fim de julho, o Desenrola Fies realizou 113.444 renegociações, envolvendo R$ 5,92 bilhões em dívidas. Após os descontos, o saldo caiu para R$ 1,28 bilhão, uma redução superior a R$ 4,65 bilhões.
O Ministério da Fazenda afirma que não há previsão de novos descontos para estudantes adimplentes. Segundo a pasta, contratos em dia fazem parte da receita prevista da União, e conceder abatimentos semelhantes aos dos inadimplentes representaria renúncia de arrecadação com impacto nas contas públicas.
Como alternativa, o governo destaca o Fies Empreendedor, linha de crédito destinada a egressos que mantiveram os pagamentos em dia. O programa oferecerá financiamentos com juros inferiores a 1% ao mês para abertura ou expansão de negócios.
O Ministério da Educação informa que a iniciativa terá orçamento de até R$ 1 bilhão e poderá beneficiar entre 50 mil e 125 mil pessoas. Os empréstimos serão concedidos pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal.
A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) considera positivas as renegociações para estudantes inadimplentes, mas defende que futuras mudanças também valorizem quem cumpriu regularmente suas obrigações financeiras. Segundo a entidade, preservar esse equilíbrio é importante para garantir a sustentabilidade do Fies e ampliar o acesso de novos estudantes ao ensino superior.
