A cada Copa do Mundo, uma seleção conquista o carinho dos brasileiros. Em 2026, esse papel ficou com Cabo Verde. Embalada pelo carisma do goleiro Vozinha e pela campanha surpreendente no Mundial, a seleção africana ganhou milhões de torcedores no Brasil.
Mas, muito antes do futebol, Cabo Verde já havia atravessado fronteiras por outro motivo: sua música.
E nenhuma canção representa melhor essa identidade do que “Sodade”, eternizada na voz de Cesária Évora.
A saudade que virou patrimônio musical
Lançada internacionalmente em 1992, no álbum Miss Perfumado, “Sodade” é considerada a canção mais emblemática da música cabo-verdiana.
Interpretada em crioulo cabo-verdiano, a música retrata a dor da distância e a saudade de quem precisou deixar sua terra natal, sentimento profundamente ligado à história do arquipélago.
A letra faz referência aos milhares de cabo-verdianos enviados para trabalhar em outras colônias portuguesas, especialmente São Tomé e Príncipe, durante o período colonial. Cabo Verde conquistou a independência de Portugal apenas em 1975, após quase cinco séculos de domínio português.
Trechos como:
“Ken mostrá-be es kaminhu lonje?”
(Quem te mostrou esse caminho tão distante?)
e
“Sodade des nha terra Saniklau”
(Saudade da minha terra, São Nicolau)
transformaram a música em um símbolo da diáspora cabo-verdiana.
De Cesária para o mundo
A força de “Sodade” atravessou gerações e conquistou artistas de diferentes países.
Marisa Monte manteve uma relação próxima com Cesária Évora e dividiu o palco com a cantora em apresentações como a Expo Lisboa, em 1998, e um show no Parque Ibirapuera, em São Paulo, em 2000.
Madonna também se encantou pela canção. Em 2020, interpretou “Sodade” ao lado do cantor cabo-verdiano Dino D’Santiago durante a turnê Madame X, em Lisboa. A homenagem voltou a acontecer anos depois na turnê The Celebration.
Já Ivete Sangalo levou a música de volta às suas origens ao homenagear Cesária durante o Festival Baía das Gatas, em Cabo Verde, em 2024. Enquanto cantava “Sodade”, imagens da artista eram exibidas no telão.
O legado de Cesária Évora
Conhecida mundialmente como a “diva dos pés descalços”, Cesária Évora foi a principal responsável por apresentar ao mundo a morna, gênero tradicional cabo-verdiano marcado por melodias melancólicas e letras sobre amor, distância e saudade.
Mesmo após sua morte, em 2011, aos 70 anos, sua obra continua influenciando artistas e conquistando novos públicos. “Sodade” soma cerca de 64 milhões de reproduções no Spotify e segue ganhando novas versões e interpretações nas redes sociais.
Agora, enquanto Cabo Verde escreve um dos capítulos mais importantes de sua história no futebol, é impossível não lembrar da música que, há mais de três décadas, levou o sentimento e a cultura do arquipélago para o mundo inteiro.
Afinal, se a seleção conquistou o carinho dos brasileiros nesta Copa, a saudade de Cabo Verde já havia conquistado a música muito antes.
