O número de propriedades rurais retomadas por credores e levadas a leilão cresceu significativamente no Brasil, refletindo o agravamento da crise financeira enfrentada por produtores agrícolas em diversas regiões do país.
Dados compilados pela Reuters mostram que a inadimplência no crédito rural alcançou 19,6% dos empréstimos em circulação, quase quatro vezes acima do registrado há dois anos. O cenário é resultado da combinação entre queda nos preços das commodities agrícolas, juros elevados, aumento dos custos de produção e sucessivos eventos climáticos extremos.
Segundo informações do Banco Central, as operações de crédito rural com problemas de pagamento saltaram para R$ 171,2 bilhões no início deste ano. Como consequência, credores têm intensificado a execução de garantias e ampliado a retomada de propriedades para recuperação de dívidas.
Levantamento do portal Leilão Imóvel aponta que 14.219 propriedades rurais foram colocadas em leilão em 2025, um aumento de 30% em relação ao ano anterior. Os processos extrajudiciais, considerados mais rápidos, também avançaram e quase dobraram nos últimos anos.
O Rio Grande do Sul aparece entre os estados mais afetados. A região ainda enfrenta os impactos das enchentes históricas registradas em 2024, associadas ao fenômeno El Niño e às mudanças climáticas, que comprometeram a produtividade agrícola e agravaram o endividamento dos produtores.
Além das perdas climáticas recentes, agricultores demonstram preocupação com a possibilidade de um novo episódio de forte El Niño nos próximos meses. O fenômeno pode provocar novos prejuízos às lavouras e reduzir ainda mais a renda do setor.
Outro fator que pressiona as contas do agronegócio é o aumento dos custos dos fertilizantes, impulsionado pelas tensões geopolíticas e pela alta dos preços internacionais dos insumos.
Para o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, o momento exige atenção. Segundo ele, o elevado nível de endividamento representa um dos principais desafios enfrentados atualmente pelo setor rural brasileiro.
Dados da Serasa Experian também mostram crescimento expressivo nos pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio. Em 2025, os requerimentos aumentaram 56% após já terem mais que dobrado no ano anterior.
Especialistas alertam que a combinação de juros elevados, incertezas sobre os preços das commodities e riscos climáticos continua pressionando a capacidade de pagamento dos produtores. A avaliação é de que a recuperação financeira do setor ainda pode levar tempo, especialmente nas regiões mais afetadas por eventos climáticos extremos.
