A série “Alucinação”, que estreia no Canal Brasil, revisita a trajetória de Belchior e tenta lançar luz sobre os momentos mais enigmáticos da vida do cantor e compositor cearense, morto em 2017. A produção é dirigida por Eduardo Albergaria e tem roteiro assinado por Daniel Dias e Albergaria.
Baseada na biografia Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, de Jotabê Medeiros, a série é dividida em quatro episódios e percorre diferentes fases da vida do artista. Belchior é interpretado por Caian Zattar, na juventude e durante o auge da carreira, Luiz Carlos Vasconcelos, na fase final, e Márcio Levi, na infância.
A narrativa aposta em uma abordagem contemplativa, com poucos momentos de ação e maior atenção aos silêncios, olhares e conflitos internos do artista. A produção também alterna períodos da juventude de Belchior com os anos em que ele viveu afastado da vida pública.
Os anos de isolamento
Um dos principais focos da série é o período entre 2007 e 2017, quando Belchior passou a viver de forma itinerante ao lado da companheira, Edna Prometheu, interpretada por Isabela Garcia. Os dois circularam pelo Uruguai e pelo Sul do Brasil, dependendo muitas vezes da ajuda de conhecidos e sem residência fixa.
A série procura retratar os conflitos daquele período, quando o cantor se afastou dos holofotes e passou a viver longe do mercado musical. Em uma das cenas mais marcantes, Belchior chora ao tentar tocar violão, em um momento que sugere as dificuldades emocionais enfrentadas pelo artista.
Música de Belchior fica fora da trilha
Por questões jurídicas, o cancioneiro de Belchior não pôde ser utilizado na trilha sonora original. A exceção foi “Mucuripe”, parceria com Fagner, que recebeu autorização para ser executada ao vivo.
A música aparece em uma cena que reconstitui a conhecida discussão entre Belchior e Fagner na casa de Amelinha. O conflito teria começado por causa de um casaco que Fagner havia dado ao colega e que acabou sendo repassado à namorada.
No episódio final, a produção volta ainda mais no tempo para mostrar a infância de Belchior e sua relação com a mãe, Dolores. A série também aborda o período em que ele viveu como seminarista, quando era conhecido como Frei Sobral, antes de abandonar a vida religiosa e seguir o caminho da música.
Com uma narrativa lenta e marcada por lacunas, “Alucinação” não pretende oferecer uma explicação definitiva para o isolamento de Belchior, mas construir um retrato de um artista inquieto que passou boa parte da vida tentando encontrar seu lugar na música brasileira.
