O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia é mais um sinal das dificuldades enfrentadas pelo varejo tradicional. O setor passa por uma transformação que combina juros elevados, crédito mais caro, endividamento das famílias, mudanças no comportamento do consumidor e avanço do comércio eletrônico.
Especialistas, porém, alertam que não há uma crise generalizada no varejo. Os maiores problemas estão concentrados em modelos de negócio mais dependentes de lojas físicas, grandes estoques e vendas financiadas.
O que mudou no varejo?
A expansão do comércio eletrônico, acelerada durante a pandemia, mudou os hábitos de consumo. Os consumidores passaram a valorizar mais preço, praticidade, rapidez e facilidade para comparar produtos.
Ao mesmo tempo, empresas que cresceram com alto nível de endividamento passaram a enfrentar custos financeiros maiores com a alta dos juros.
O impacto é especialmente forte em segmentos como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, que dependem do crédito para financiar tanto o consumidor quanto suas próprias operações.
A concorrência também mudou
Além de empresas como Amazon e Mercado Livre, plataformas internacionais como Shein, Shopee e Temu aumentaram a pressão sobre as varejistas tradicionais.
A competição deixou de ser apenas entre lojas nacionais. Com poucos cliques, o consumidor consegue comparar preços com vendedores de diversos países, pressionando as margens das empresas brasileiras.
Novos formatos, como marketplaces, dropshipping, showrooms e operações phygital, também ganharam espaço ao combinar canais físicos e digitais e reduzir custos fixos.
Por que os juros são tão importantes?
O varejo tradicional é altamente dependente de crédito. Quando os juros sobem, o consumidor tende a comprar menos a prazo e as empresas passam a pagar mais para financiar estoques, operações e dívidas.
No pedido de recuperação judicial, as Casas Bahia apontaram justamente juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro como fatores para o agravamento da situação.
A combinação reduz o consumo e, ao mesmo tempo, aumenta o custo para manter o negócio funcionando.
E as apostas esportivas?
Especialistas também apontam o crescimento das bets como um fator adicional de pressão sobre a renda disponível das famílias.
Um levantamento citado na reportagem estima que os brasileiros destinaram R$ 62,5 bilhões às apostas em 2025. A avaliação é de que esse dinheiro passa a disputar espaço no orçamento com compras, lazer, pagamento de dívidas e poupança.
As lojas físicas vão desaparecer?
Não necessariamente. A tendência apontada pelos especialistas é de reestruturação, e não de desaparecimento completo.
As lojas podem assumir novas funções, como pontos de retirada, centros de distribuição e espaços integrados ao comércio eletrônico. O modelo tende a funcionar melhor quando a estrutura física é utilizada de maneira mais eficiente.
O varejo, portanto, não está necessariamente acabando. O que está em crise é um modelo baseado em grandes estruturas, estoques elevados, crediário e custos fixos altos. A recuperação das empresas dependerá cada vez mais de geração de caixa, eficiência operacional, integração entre canais e capacidade de acompanhar um consumidor mais digital e mais sensível a preços.
