A nova adaptação de “A Odisseia”, dirigida por Christopher Nolan, estreou com a maior bilheteria da carreira do cineasta. Apesar do sucesso comercial, o filme tem dividido opiniões entre estudiosos da obra atribuída a Homero.
Para o professor e especialista em cultura clássica Cláudio Moreno, o principal problema da adaptação está na forma como o diretor retrata — ou simplesmente elimina — as personagens femininas da narrativa.
Segundo ele, a epopeia apresenta mulheres fortes, inteligentes e decisivas para a trajetória de Ulisses, mas o longa privilegia a ação e o espetáculo visual em detrimento dessa dimensão da história.
Penélope
Interpretada por Anne Hathaway, Penélope é vista por Moreno como muito mais do que a esposa que espera o retorno de Ulisses.
Na obra original, ela governa Ítaca durante duas décadas, enfrenta a pressão dos pretendentes ao trono e preserva o reino graças à inteligência e à habilidade política.
Para o especialista, o filme reduz essa complexidade e enfraquece uma das personagens mais importantes da epopeia.
Circe
Na mitologia, Circe é uma poderosa feiticeira que transforma os companheiros de Ulisses em porcos e, posteriormente, torna-se uma aliada fundamental do herói.
Moreno afirma que Nolan simplifica a personagem, interpretada por Samantha Morton, transformando-a em uma figura agressiva e sem a profundidade presente no poema.
Além de viver um relacionamento com Ulisses, Circe é quem orienta o herói sobre a viagem ao mundo dos mortos e o caminho para retornar a Ítaca.
Calipso
Interpretada por Charlize Theron, Calipso também teve sua importância reduzida, segundo Moreno.
Na epopeia, a ninfa oferece a Ulisses aquilo que nenhum outro personagem recusa: a imortalidade.
O herói rejeita a proposta para voltar para casa e reencontrar Penélope, decisão considerada um dos momentos mais simbólicos da obra.
Para o professor, a adaptação elimina esse conflito e transforma Calipso em uma personagem excessivamente passiva.
Atena
Outra crítica recai sobre Atena, vivida por Zendaya.
Na obra original, a deusa acompanha praticamente toda a jornada de Ulisses, intervém junto aos deuses e conduz diversos acontecimentos decisivos.
No filme, porém, Moreno considera que Atena aparece como uma figura secundária, distante da força e da influência que exerce no poema.
Nausícaa
A ausência completa de Nausícaa é apontada como uma das maiores perdas da adaptação.
Na epopeia, a princesa encontra Ulisses após um naufrágio, acolhe o herói e lhe oferece a possibilidade de reconstruir a vida em um novo reino.
Segundo Moreno, retirar essa personagem elimina um dos últimos grandes testes enfrentados por Ulisses antes de retornar a Ítaca.
Mais aventura, menos essência
Para o especialista, Nolan transformou a epopeia em uma narrativa centrada na aventura, privilegiando batalhas, cenários grandiosos e efeitos visuais.
Na avaliação de Moreno, temas fundamentais da obra — como o amadurecimento de Ulisses, a importância das mulheres na narrativa e as reflexões sobre poder, família e destino — perderam espaço.
Embora reconheça as limitações de adaptar um poema com quase três mil anos para o cinema, o professor considera que o filme sacrifica justamente os elementos que fizeram de “A Odisseia” uma das obras mais influentes da literatura ocidental.
