O movimento body positive, que ganhou força ao defender a aceitação de todos os corpos e combater a gordofobia, vive um período de transformação. Após alcançar grande visibilidade entre 2019 e 2022, especialistas apontam que a pauta perdeu espaço nas redes sociais, na publicidade e na moda.
Ao mesmo tempo, influenciadores que ajudaram a popularizar o movimento passaram por processos de emagrecimento e foram alvo de críticas de antigos seguidores, reacendendo o debate sobre liberdade de escolha e saúde.
Mudança de trajetória
No Brasil, uma das pioneiras do movimento, Beta Boechat, explicou que decidiu fazer uma cirurgia bariátrica após chegar aos 220 kg e perder mobilidade.
Segundo ela, muitas pessoas interpretaram o body positive de forma equivocada.
“Eu nunca disse que as pessoas não poderiam emagrecer. O movimento sempre foi sobre poder viver bem no próprio corpo.”
Hoje, Beta produz conteúdos de humor e já não aborda o tema com frequência.
Outra referência do movimento, Alexandra Gurgel, também deixou de tratar o body positive como foco principal de suas redes sociais e afirma que passou anos tentando corresponder à imagem de uma “militante perfeita”.
Ela também está em processo de emagrecimento e diz que sempre houve pressão para que ativistas permanecessem gordos.
Movimento muda de formato
Para Alexandra, o body positive não desapareceu, mas evoluiu.
Segundo ela, o discurso atual está mais ligado à autoestima, ao respeito às diferenças e à liberdade de cada pessoa fazer escolhas sobre o próprio corpo, sem a mesma postura confrontadora que marcou o auge do movimento.
Menos diversidade na moda
Especialistas apontam que o enfraquecimento do movimento também aparece na indústria da moda.
Levantamento da Vogue Business mostra que, nos principais desfiles da temporada, 97,1% dos looks foram apresentados por modelos dentro do padrão considerado tradicional, enquanto apenas 0,9% eram plus size.
Entre os fatores apontados para essa redução estão:
- fortalecimento de discursos conservadores;
- menor investimento de empresas em campanhas de diversidade;
- mudanças culturais após a pandemia.
Saúde e canetas emagrecedoras
Outro fator que mudou o cenário foi a popularização dos medicamentos para emagrecimento.
Especialistas afirmam que esses tratamentos não entram em conflito com a proposta do body positive.
Segundo médicos, o combate ao preconceito contra pessoas gordas pode coexistir com tratamentos para obesidade quando essa condição representa risco à saúde.
Eles ressaltam que:
- obesidade é considerada uma doença crônica;
- emagrecer deve ser uma decisão individual;
- o respeito às pessoas não deve depender do tamanho do corpo.
O movimento continua?
Para influenciadores e especialistas, sim — mas com outro foco.
Hoje, a discussão está menos centrada na militância e mais na ideia de que cada pessoa deve ter autonomia para decidir como quer viver, emagrecer ou não, sem sofrer preconceito.
A principal mensagem permanece a mesma: respeito aos diferentes corpos e à liberdade de escolha, independentemente do peso.
