O funk vive uma transformação nos bastidores. Além de liderarem as paradas de streaming, muitos MCs passaram a comandar as próprias empresas, gerenciar carreiras e controlar todas as etapas de seus lançamentos, reduzindo a dependência de grandes produtoras.
O movimento fica evidente nas duas músicas que aparecem entre as mais ouvidas do Spotify Brasil nesta semana. “Pau Pra Toda Obra”, sucesso de MC Jacaré, MC Ryan SP, MC IG e MC Lele JP, reúne artistas que também são donos de produtoras. Jacaré comanda a Croco Hits, Ryan SP é fundador da Bololô Records, enquanto MC IG administra a Gringos World, responsável também pela carreira de Lele JP.
Já “Cuida do Pet”, outro destaque nas plataformas, reúne artistas ligados a empresas comandadas por nomes do próprio funk, como Rauls Produtora, Cria Hit, GLife Records e Oldilla Records.
Segundo DJ Loirin, fundador da Cria Hit, o crescimento desse modelo reflete uma nova geração de artistas que decidiu assumir o controle do próprio negócio.
“Os artistas entenderam que era possível administrar a própria carreira e construir uma empresa. Dá muito trabalho, mas é disso que a gente vive”, afirma.
Ideia nasceu com MC Kevin
A mudança começou a ganhar força após MC Kevin deixar a GR6, em 2020, para criar a Revolução Records. Embora o projeto tenha sido interrompido pela morte do artista em 2021, a iniciativa inspirou outros funkeiros a seguirem o mesmo caminho.
Nos anos seguintes, nomes como MC Ryan SP e MC IG consolidaram suas produtoras e passaram a agenciar novos artistas, oferecendo estrutura para gravações, videoclipes, distribuição digital e planejamento de carreira.
Modelo mais enxuto
As produtoras comandadas por MCs trabalham com elencos menores e apostam em um acompanhamento mais próximo dos artistas. Entre os principais diferenciais apontados pelo setor estão:
- atendimento mais individualizado;
- contratos mais flexíveis e com maior transparência financeira;
- liberdade para parcerias com artistas de outras produtoras.
Para MC Lele JP, a principal vantagem é ser acompanhado por alguém que já enfrentou os mesmos desafios.
“Meu empresário viveu tudo isso antes de mim. Os conselhos são diferentes porque ele sabe exatamente como funciona”, afirma.
Desafios continuam
Apesar do crescimento, o modelo ainda enfrenta obstáculos. A profissionalização da gestão, a elaboração de contratos e a venda de shows seguem entre os principais desafios.
Nesse último ponto, a GR6 continua sendo uma das empresas mais fortes do mercado. Em muitos casos, mesmo artistas gerenciados por produtoras independentes mantêm a comercialização de apresentações sob responsabilidade da empresa.
A mudança, no entanto, já alterou o funcionamento do mercado do funk. Com mais artistas administrando suas próprias carreiras, aumentou a concorrência entre produtoras, a cobrança por profissionalização e o interesse dos MCs em entender melhor temas como direitos autorais, fonogramas e divisão de receitas nas plataformas digitais.
